Sobre escrever (e ser escrita)
Sobre escrever (e ser escrita)
Há um instante — sempre o mesmo — em que eu deixo de existir.
É quando a caneta toca o papel, ou quando os dedos encontram o teclado, e algo em mim se dissolve. Não sou mais eu quem pensa. Sou atravessada. As palavras chegam como quem chega em casa depois de uma longa viagem: cansadas, urgentes, certas de que aquele é o seu lugar.
Escrever, para mim, é dar forma ao invisível. É arrancar do silêncio aquilo que a alma sente e se recusa a guardar. É trazer para esta realidade — dura, concreta, finita — as coisas que acontecem na minha cabeça, onde não há paredes, nem tempo, nem fim.
Uma escrita pode nos levar longe. E quem escreve, lê. Eu abro um livro e vejo o infinito: cada palavra, cada frase, cada capítulo guarda um significado que espera por mim. Há magia nas palavras. Elas têm o poder de me levar para espaços jamais vistos — e, mais assustador ainda, têm o poder de me trazer de volta alguém que já não era eu.
Ler é sair do corpo. É viajar por dimensões, pousar na lua, atravessar o infinito e chegar a lugar nenhum. Ler é aprender a ouvir as vozes, e escrever é aprender a responder.
Às vezes sinto que escrevo há milhares de anos. Como se esta vida fosse apenas mais um capítulo de um livro que comecei muito antes de nascer. Minha alma sorri quando pego um livro. Ela se transforma quando pego um caderno e uma caneta — como se, enfim, reconhecesse a própria casa.
Agora dou vida a um sonho que ficou tempo demais esperando espaço. Minha escrita deixa de ser fragmentos e passa a ser inteira. Estou escrevendo meu primeiro livro.
E aqui está o segredo que quase ninguém vai entender: não sou eu quem o escreve. É ele quem me escreve.
Cada página que nasce me reescreve. Cada frase me desmonta e me remonta. Quando escrevo, não sei mais onde termina a minha mão e começa a história. Não sei se sou a autora ou a personagem. Não sei se estou criando o livro — ou se o livro está me criando.
Há histórias minhas nas entrelinhas dela. Há ficção dela nos silêncios meus. Aos poucos, já não sei mais onde termina a Mari e começa a personagem. Talvez não haja diferença. Talvez o livro seja um espelho — e quem olhar vai se perguntar: isso aconteceu ou foi inventado?
E essa dúvida é exatamente o que eu quero.
É assim que a escrita me encontra. Escrever me tira do eixo. Me desloca. Me tira de mim.
E é por isso que eu escrevo.
Porque dar vida às palavras me deixa em êxtase. Porque, quando escrevo, eu não estou apenas contando uma história. Eu estou inteira. E, ao mesmo tempo, em pedaços — espalhada entre o real e o inventado, entre o que vivi e o que imaginei.
Fique por aqui!
Em breve te conto mais...
Com presença,
Mari Presrlak